O caminho das águas


gina mardones/ comércio da franca

Paulo Godoy, da Redação

 

Motoristas e pedestres que transitam pela Avenida Ademar de Barros, nos encontros com outras duas avenidas, a Doutor Ismael Alonso y Alonso e Doutor Hélio Palermo mal imaginam que estão sobre as nascentes de dois dos principais córregos de Franca: o Bagres e o Cubatão. Com o córrego do Espraiado, formam um rico sistema hídrico que corta a cidade a partir da Zona Leste, passando por áreas densamente povoadas próximas ao centro, até que os três se encontram e seguem juntos em direção ao Rio Sapucaí.

 

A convivência com os córregos é antagônica para os francanos, pendendo mais para o lado do desinteresse que para o da preocupação ambiental ou reconhecimento de sua importância como um sistema que deveria ser preservado. Ao menos o que sobrou deles.

 

Nesta reportagem, o Comércio percorreu os três córregos, de suas nascentes até o ponto onde se encontram, na região do Posto Galo Branco, no entroncamento das avenidas Alonso y Alonso e Hélio Palermo, na tentativa de explicar por que, ano após ano, o verão chega e, com eles, os transbordamentos que geram prejuízos seguidos.

 

Para a secretária de Obras e Urbanismo de Franca, Valéria Marson, o único córrego onde é possível corrigir erros cometidos em administrações passadas é o Espraiado, dada as características de sua nascente (não coberta) e as regiões pelas quais passa. Nos outros dois, segue Marson, nada mais pode ser feito. “O Bagres e o Cubatão estão no limite físico de sua canalização. Não tem mais onde mexer nem o que fazer”, disse ela, referindo-se justamente aos dois mais problemáticos.

 

Somados, os três córregos geram uma vazão de 470 metros cúbicos de água por segundo, oriundos, principalmente, das próprias chuvas e das bacias de contribuição – sistemas de captação de águas pluviais em bairros e loteamentos, canalizados para os três canais.

 

A velocidade e volume com que essa água toda percorrerá os 15 quilômetros de extensão dos três córregos dependerão de inúmeros fatores, mas, principalmente, do ponto em que a chuva os atingir. Assim, se chover na região das nascentes é certo que na jusante o problema de transbordamentos e enchentes estará instalado.

 

A Prefeitura de Franca agora trabalha em um planejamento para os próximos 10 ou 20 anos e que deverá estar pronto até 2012. Seja qual o resultado apresentado, uma coisa os técnicos que cuidam do assunto já sabem: ao não preservar as margens dos córregos dos Bagres e Cubatão, construindo avenidas no limite de seus cursos, as administrações anteriores selaram o quadro que se apresenta nos dias de hoje. “Precisamos tentar corrigir o que ainda pode ser corrigido”, disse a secretária Valéria Marson.

 arte/comércio da franca

LEGENDA 

 

  1.  Bagres – A nascente daquele que é o mais importante e conhecido córrego de Franca nasce de uma porção de terra já sob o asfalto do começo da Avenida Doutor Hélio Palermo, na Zona Leste da cidade. O córrego dos Bagres teve grande parte de sua canalização projetada durante o governo do ex-prefeito Hélio Palermo, no final da década de 60. Nos últimos anos, o modelo de construção das paredes que canalizaram seu curso trouxe prejuízos recorrentes, com destruição material de imóveis próximos, e seguidos transbordamentos. O rebaixamento de sua calha é uma aposta para evitar novos problemas.
  2. Afluentes – A exemplo dos córregos do Espraiado e Cubatão, o Bagres tem quase toda a sua rede de afluentes canalizada e drenada para o canal principal. Foge à regra o córrego Doutor Carrão, que atinge o Bagres próximo ao local onde está o Pronto Socorro “Doutor Janjão”. Outros afluentes, como o córrego que corta a praça Zumbi dos Palmares, fazem parte da rede que ajuda a abastecer o Bagres perenemente. Após o encontro com os outros dois córregos, o Bagres prossegue seu curso original, passando pelo Residencial Amazonas e seguindo até se transformar no Rio Sapucaí. É na região do residencial que se pode ver o projeto que deveria ter sido adotado em toda a extensão do córrego dos Bagres, tanto quanto no Espraiado e Cubatão: margens vegetadas com até 30 metros de largura.
  3. Do grande encontro ao Sapucaí – Depois de percorrer mais de sete quilômetros de extensão, em uma área totalmente impermeabilizada de Franca, o córrego dos Bagres encontra os outros dois principais fluxos de água, o Espraiado e o Cubatão. É um ponto nevrálgico de Franca, que mistura águas pluviais e fluviais num sistema de drenagem que, ao longo dos anos, não se mostrou eficiente para grandes volumes de chuva, gerando enchentes e transbordamentos de grande amplitude na região que serve de entroncamento entre as avenidas Doutor Hélio Palermo e Doutor Ismael Alonso y Alonso.
  4. Cubatão – O córrego Cubatão, cujo último projeto de canalização ocorreu há mais de 20 anos, é acompanhado em parte de sua extensão pela Avenida Doutor Ismael Alonso y Alonso. Originário de um erro histórico, o Cubatão apresenta uma vazão média de cem metros cúbicos de água por segundo. Com três afluentes já drenados e canalizados, o Cubatão, a exemplo dos Bagres, não permite mais nenhuma obra que possa mudar sua configuração arquitetônica. Com seu canal de paredes em forma de trapézio, em parte do trajeto, e com paredes de 90 graus, o córrego está no limite, segundo a secretária de Urbanismo e Meio Ambiente Valéria Marson.
  5. Erro Histórico – A Prefeitura de Franca até colocou uma placa anunciando uma obra sobre o córrego Cubatão, próximo ao Jardim Bueno, no trecho entre a Rua Goiás e Avenida Alagoas, mas o curso de água que passa por ali não pode ser chamado de Cubatão. Com sua nascente canalizada e subterrânea, o canal que serpenteia junto com Avenida Ismael Alonso y Alonso serve para a água que surge da ocorrência de várias minas. O verdadeiro Cubatão nasce à direita, embaixo das ruas do Jardim do Líbado, na Zona Leste de Franca. Ele passa por uma área de várzea e chega à Alonso Y Alonso apenas ao cruzar com a Rua Goiás, conhecida como rotatória da HB.
  6. O Cruzamento – imagem e texto da introdução.
  7. Cachoeira – Durante praticamente toda a sua extensão, o córrego Cubatão apresenta desníveis em forma de degraus que servem para diminuir a velocidade da água. Na baixada da Alonso y Alonso, próxima ao Jardim Veneza, a cachoeira formada a partir da topografia acidentada do local também ajuda na contenção de toda a água do Cubatão que desce em direção ao encontro com o Espraiado e Bagres.
  8. Encontro com Cubatão – Após percorrer perto de quatro mil metros, o córrego do Espraiado encontra-se com o Cubatão, próximo ao Parque dos Lima. De lá, as águas percorrerão outros 450 metros, aproximadamente, até fundirem-se com o Bagres. Os três principais córregos de Franca vão se unir a outros afluentes e, mais à frente, se transformarão no Rio Sapucaí.
  9. Parque Alagável – A bacia do Espraiado é a maior de Franca. Durante boa parte do percurso do córrego, o aspecto da água sugere poluição, embora não tenha sido possível confirmar essa condição. Ao chegar à represa do Castelinho, o Espraiado é transformado em bacia de contenção. De lá, por dutos, a água acumulada vai sendo liberada aos poucos de volta ao canal. De acordo com a secretária Valéria Marson, o parque alagável do Jardim Santana (foto) é uma das medidas que a Prefeitura de Franca tomou para conter a velocidade com que a água chega ao ponto de encontro com o Cubatão. O local funcionará como um parque no período seco e como uma área de contenção durante as chuvas. Barragens construídas no local permitirão que a água acumulada verta para o canal com menor impacto.
  10. Espraiado – Com vazão de 260 metros cúbicos por segundo, o canal do Espraiado nasce a partir de pequenas minas de água na divisa dos jardins Noêmia e Parati. É o único que tem a nascente totalmente descoberta e com área de preservação passível de conservação. No dia em que a reportagem visitou o ponto de onde surge o córrego, uma rede de esgoto estava contaminando suas águas há dias.

 

Veja o álbum das fotos, clicando aqui.

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